Turismo rural como renda complementar: quando a rotina do campo vira oportunidade
Leandro Scalabrin
Saí da roça com 17 anos para estudar e trabalhar.
Mesmo deixando o campo fisicamente, a roça nunca saiu de mim.
Atuei no setor de tecnologia, fui professor, empreendi, construí empresas. Mas sigo profundamente conectado ao campo — até porque meus pais ainda vivem no sítio. Estar conectado com o campo faz parte do meu dia a dia.
Para mim, essa conexão é natural.
Para muitas pessoas, mesmo vivendo em pequenas cidades, não é.
E é justamente aí que nasce uma grande oportunidade para o que eu gosto de chamar de empreendedores rurais.
O que é rotina para quem vive no campo é experiência para quem vive na cidade
No dia a dia da propriedade rural, muitas atividades passam despercebidas para quem está no campo:
acordar cedo
tomar o café feito em casa
tratar os animais
tirar o leite
plantar, colher, limpar
cuidar do sítio
Tudo isso é rotina.
Mas, para quem vive fora do campo, isso é experiência.
E experiência tem valor.
O turismo rural não nasce da invenção de algo novo. Ele nasce da vivência real do dia a dia da propriedade.
Quando o simples vira memorável
Quero compartilhar uma experiência pessoal recente.
Tenho uma filha de quase 12 anos. No último final de semana, decidimos fazer o almoço juntos. Não um macarrão qualquer. Fizemos massa do zero:
5 ovos, um pacote de farinha, uma garrafa de vinho vazia, uma bacia e tempo.
Ela não fazia ideia do processo.
Do trabalho.
Do esforço por trás de uma comida simples, feita “à moda do sítio”.
O sabor do almoço foi diferente.
Não pela massa em si, mas pelo fato de vivenciar todo o processo.
É exatamente isso que muitas pessoas estão buscando hoje.
O pós-pandemia escancarou o valor do simples
Depois da pandemia, algo mudou de forma definitiva:
as pessoas passaram a valorizar mais o simples, o rústico, o real.
Hoje vemos um número crescente de pessoas buscando:
tirar leite
fazer passeio a cavalo
pescar em açude
tomar banho de rio ou cachoeira
fazer trilhas
comer uma fruta tirada do pé
Essas experiências não exigem grandes investimentos.
Elas exigem olhar de oportunidade.
Valor agregado que não está no custo de produção
Um exemplo clássico:
um sítio que cultiva morangos.
O valor de um morango colhido pelo próprio visitante é muito maior do que o valor de uma bandeja no mercado.
Não porque o custo de produção aumentou, mas porque a experiência agregou valor.
Esse valor vai direto para o bolso do produtor.
O mesmo vale para:
um almoço simples feito no fogão a lenha
um café colonial
uma caminhada guiada pela propriedade
uma tarde acompanhando a colheita
Turismo rural como renda extra (não como substituição)
É importante reforçar:
o turismo rural, na agricultura familiar, não substitui a produção.
Ele entra como:
renda complementar
diversificação
diluição de risco
fortalecimento da renda familiar
Quando bem planejado, ele:
valoriza a produção
fortalece a identidade da propriedade
amplia a viabilidade financeira do sítio
Um exemplo que sempre me vem à cabeça é Urubici, em Santa Catarina.
O turismo antes da pandemia era um. Depois da pandemia, outro completamente diferente. A busca deixou de ser por aglomeração e passou a ser por natureza, experiência e conexão.
O papel do planejamento também no turismo rural
Assim como na produção agrícola, o turismo rural também exige planejamento:
capacidade de receber
segurança
alinhamento entre expectativa do visitante e realidade do campo
integração com a rotina produtiva
Quando isso é feito de forma consciente, o turismo se encaixa naturalmente na vida da propriedade.
Empreendedores rurais: o futuro nasce do que já existe
Muitos pequenos produtores não percebem o potencial que existe no próprio sítio.
Não é preciso inventar nada novo.
Às vezes, o que já existe na propriedade pode se transformar em renda de forma inteligente, com pouco investimento e muito significado.
Turismo rural é, antes de tudo, valorização da vida no campo.
Leandro Scalabrin
Filho de agricultor familiar, empreendedor em tecnologia e fundador da Laços do Agro.
Leandro Scalabrin
Publicacao da Lacos do Agro